Candidato a deputado e suplente de Contar ao Senado são sócios da mesma usina solar em MS


Jaime Verruck, ex-secretário da Semadesc, e Cláudio George Mendonça, diretor-superintendente licenciado do Sebrae/MS, dividem o capital da Sol 67 Ltda desde abril de 2024; no endereço em que a empresa está registrada, a única usina fotovoltaica identificada é a Flor do Campo, listada no portfólio da MS Energy, principal fornecedora de energia solar do Sistema S em Mato Grosso do Sul
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Dois nomes que disputam as eleições de outubro em Mato Grosso do Sul dividem, desde abril de 2024, o capital da mesma empresa: uma usina de energia solar registrada na zona rural de Anastácio, a 130 quilômetros de Campo Grande. São eles o economista Jaime Elias Verruck, ex-secretário estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento por mais de 11 anos e agora candidato a deputado federal pelo Republicanos, e Cláudio George Mendonça, diretor-superintendente licenciado do Sebrae/MS e primeiro suplente do candidato ao Senado Renan “Capitão” Contar (PL).


A empresa chama-se Sol 67 Ltda (CNPJ 54.612.654/0001-03) e foi constituída em 5 de abril de 2024, com capital social de R$ 300 mil, e tem endereço na zona rural de Anastácio, com o complemento cadastral “US. Flor do Cerrado”, indicação, no jargão do setor, de que o CNPJ está domiciliado na própria usina.


Três empresas, um quadro societário

O capital da Sol 67 não está em nome de pessoas físicas. Está distribuído entre três outras empresas, todas com o mesmo dia de entrada no quadro societário, 5 de abril de 2024:

– Alira Empreendimentos e Participações Ltda (48.411.366/0001-80), de Campo Grande, aberta em outubro de 2022. Seus sócios são Jaime Elias Verruck e Juliana Barros Verruck, esta na condição de sócia-administradora. Entre as atividades secundárias registradas da Alira estão “geração de energia elétrica” e “comércio atacadista de energia elétrica”.

– Up Innova Participações Ltda (12.431.007/0001-47), sediada na Fazenda Santa Virgem, na BR-262, em Terenos. Tem como sócio-administrador único, desde 2010, Cláudio George Mendonça.

– Look Solar Ltda (50.962.424/0001-05), microempresa de Nioaque aberta em junho de 2023, de Sandro Luiz Mendonça, que é também o administrador pessoa física da Sol 67. A Look Solar e a Sol 67 informam à Receita o mesmo número de telefone.

Jaime Verruck comandou a Semadesc, e sua antecessora, a Semagro, por mais de uma década, atravessando os governos Reinaldo Azambuja e Eduardo Riedel. É a secretaria responsável pela política estadual de desenvolvimento econômico e de energias renováveis. Deixou o cargo em 1º de abril de 2026 e teve a candidatura a deputado federal homologada na convenção do Republicanos de 1º de agosto. Antes de entrar no governo, em 2015, foi diretor do Senai, diretor do IEL e diretor corporativo da própria Fiems.


Cláudio George Mendonça é economista, advogado, empresário e produtor rural. Dirige o Sebrae/MS, entidade do Sistema S mantida por contribuição parafiscal compulsória sobre a folha de pagamento das empresas. Está licenciado do cargo para disputar a eleição. Foi anunciado como primeiro suplente de Capitão Contar na convenção do bloco governista realizada em 1º de agosto.


A Sol 67 está registrada na zona rural de Anastácio, sob a designação “Usina Flor do Cerrado”. Checagem da reportagem no Google Maps identificou, naquele endereço, uma única usina fotovoltaica: a usina Flor do Campo.


A usina Flor do Campo consta, com esse nome e com a localização “Anastácio”, da página de projetos da MS Energy Engenharia, nome fantasia da Parisi S.A., do empresário italiano Massimo Parisi. Na mesma página, a MS Energy lista entre seus projetos a Fiems, a Assembleia Legislativa de MS, o Tribunal de Justiça, a Funlec e prefeituras do interior.


Apesar de parecidos, os nomes não coincidem: “Flor do Cerrado” no registro da Receita, “Flor do Campo” no portfólio da empresa que a construiu. Podem ser a mesma usina com denominação divergente entre o cadastro fiscal e o material comercial, hipótese sustentada pela coincidência de município e pela ausência de qualquer outra usina no ponto.


A empresa que constrói as usinas do Sistema S

A relevância da hipótese está em quem é a MS Energy. Um relatório de due diligence corporativa obtido pela reportagem, montado a partir de fontes abertas, diários oficiais, portais de transparência e publicações institucionais, descreve a Parisi S.A. como a principal integradora de energia solar do Estado e mapeia sua carteira de contratos com entidades do Sistema S e com órgãos públicos:


Sesc/MS — Contrato MS-2021-CT-035, por concorrência, adjudicado em 28 de maio de 2021, no valor de R$ 4,08 milhões, para instalação de usina solar conectada à rede da Energisa;


TCE-MS — Contrato nº 16/2022, de R$ 2,2 milhões, para central geradora on-grid com 1.110 módulos fotovoltaicos e 11 inversores;


Alems — Contrato Administrativo nº 004/2025, assinado em 3 de abril de 2025 por Massimo Parisi e pelo deputado estadual Paulo Corrêa, então primeiro-secretário da Mesa Diretora, para ampliação da usina da Casa com sistema de baterias BESS e carregadores veiculares;
Massimo Parisi replicou, em nome próprio, a mesma estrutura societária da Sol 67. Em abril de 2025 constituiu a UVF Parisi 040 Ltda (60.246.536/0001-13), nome fantasia “UFV Campo Grande 040”, com capital de R$ 16,02 milhões, tendo como sócia a Parisi S.A.
A atividade principal registrada é idêntica à da Sol 67, aluguel de máquinas e equipamentos sem operador, o código usado no mercado para locação de usinas fotovoltaicas.


Dois lados do balcão

A Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul, presidida por Sérgio Longen, não é apenas cliente do setor solar: é operadora. A entidade investiu cerca de R$ 25 milhões na construção de um complexo de usinas fotovoltaicas em área do Clube do Trabalhador do Sesi, na saída norte de Campo Grande, com meta de 10 MWp.


Sobre essa base, a Fiems opera o programa “Em Conta”, de geração compartilhada, que promete até 20% de desconto na conta de luz. O programa é abastecido por mais de 250 usinas fotovoltaicas ligadas ao sistema da Federação e a empresas associadas, com geração de cerca de 6.500 MWh mensais.


A Fiems já firmou convênios para levar o desconto a servidores da Câmara Municipal de Campo Grande, do TCE-MS e do TJMS, e a expansão para até 74 municípios vem sendo articulada pelo deputado estadual Paulo Corrêa (PL), o mesmo parlamentar que, como primeiro-secretário, assinou o contrato da Alems com a Parisi S.A.


É nesse ecossistema, usinas construídas pela MS Energy, energia distribuída por um programa da Fiems, consumidores captados por convênios com órgãos públicos, que se insere uma usina cujos sócios indiretos são um ex-secretário de Estado e o dirigente do Sebrae/MS.


A reportagem não conseguiu apurar quem consome a energia gerada pela usina da Sol 67.


Norma que barateou o negócio saiu da pasta de Verruck

Em 28 de fevereiro de 2020, a então Semagro editou a Resolução nº 689, que dispensou de licenciamento ambiental as usinas fotovoltaicas de geração distribuída com até 15 hectares ou até 5 MW instaladas em área antropizada. Nesses casos, passou a bastar um “Informativo de Atividade” protocolado no Imasul.


À época, o secretário Jaime Verruck justificou a medida à imprensa oficial: “Como são considerados de baixo risco, se enquadram na Lei da Liberdade Econômica e fizemos a simplificação da obtenção da licença”.


A resolução tem alcance geral e beneficia todo o setor de geração distribuída do Estado. Foi editada mais de quatro anos antes de a Alira entrar na Sol 67, e dois anos e meio antes de a própria Alira existir.

Transparência

Importante destacar que não há vedação legal a que um ex-secretário de Estado seja sócio de empresa privada, inclusive no setor que regulava. Da mesma forma, não existe vedação a que um dirigente de entidade do Sistema S tenha empresa própria.

A reportagem obteve dados a partir das prestações de conta dos empresários, que agora querem representar MS em Brasília. Eles são obrigados a informarem bens à Justiça Eleitoral.

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