Riedel e Azambuja dividem 29 fornecedores e cerca de R$ 1,9 milhão cada em contratos; Contar não aparece em nenhum

A dobradinha do Senado existe no santinho e no palanque. Nos dados da Justiça Eleitoral, porém, a campanha do governador e a do ex-governador funcionam como uma estrutura única, dos escritórios de advocacia aos 19 auxiliares que recebem exatamente R$ 7.775,00 de cada um. O terceiro nome da chapa arrecadou R$ 2.022.000,00, o maior valor entre todos os candidatos de Mato Grosso do Sul, e ainda não declarou nenhuma despesa.

Base de dados: TSE / Dados Abertos, arquivos gerados em 02/09/2026 — candidaturas e bens às 16h30; receitas e despesas às 4h05.

A coligação que uniu a direita sul-mato-grossense em 2026 tem dez legendas, três nomes no topo da chapa e duas contabilidades que se comunicam. A terceira está sozinha.

Os registros da campanha de Eduardo Riedel (PP), candidato à reeleição, e de Reinaldo Azambuja (PL), candidato ao Senado, mostram 29 fornecedores em comum, mesmo CPF ou CNPJ e, em 28 dos 29 casos, contratos lançados pelas duas campanhas na mesma data: 16 de agosto de 2026, primeiro dia de campanha. A única exceção é o Facebook, contratado em dias diferentes.

O valor envolvido nesses fornecedores compartilhados é de R$ 1.934.725,00 na conta de Riedel e R$ 1.906.725,00 na de Azambuja. São 79,95% e 88% de tudo o que cada campanha declarou ter contratado até agora.

Capitão Contar (PL), o segundo nome da chapa ao Senado e adversário direto de Riedel no segundo turno de 2022, não divide nenhum desses fornecedores. Não divide porque, até o fechamento desta reportagem, sua campanha não havia declarado uma única despesa à Justiça Eleitoral, nem contratada, nem paga.

A esposa de Contar, a publicitária Iara Diniz, tem contrato com o diretório nacional do PL de R$ 1 milhão desde fevereiro deste ano.

Dividir custos é legal e comum entre candidatos da mesma coligação: a Justiça Eleitoral admite o rateio de despesas comuns, desde que cada campanha registre a parte que lhe cabe. O que os números mostram não é irregularidade. É a geografia da aliança, quem está dentro da estrutura e quem está do lado de fora dela.

Mesmos escritórios, mesmo dia, mesmo valor

Seis contratações concentram a maior parte do dinheiro compartilhado, todas datadas de 16 de agosto:

FornecedorCPF/CNPJServiçoRiedelAzambuja
Estúdio 66 Ltda58.491.272/0001-11Rádio, TV e vídeoR$ 500.000,00R$ 350.000,00
Alessandre Vieira518.433.661-34AdvocatíciosR$ 350.000,00R$ 350.000,00
Raghiant Torres Advogados05.434.288/0001-26AdvocatíciosR$ 350.000,00R$ 350.000,00
Castro e Grillo Advogados23.302.773/0001-28AdvocatíciosR$ 300.000,00R$ 300.000,00
Mendonça Contabilidade Ltda04.379.683/0001-90ContábeisR$ 125.000,00R$ 125.000,00
Natieli Ferrazim Oieri392.999.928-51ContábeisR$ 125.000,00R$ 125.000,00

Fonte: TSE / Dados Abertos, despesas contratadas, MS, arquivo gerado em 02/09/2026.

Somadas, as duas campanhas contrataram R$ 2 milhões em serviços advocatícios e R$ 500 mil em serviços contábeis nas mesmas seis assinaturas, cada uma pagando metade, exceto na produtora de vídeo, onde o governador contratou R$ 150 mil a mais.

O compartilhamento desce até a base. Vinte pessoas físicas receberam exatamente R$ 7.775,00 da campanha de Riedel a título de despesas com pessoal; vinte e uma receberam o mesmo valor da campanha de Azambuja. Dezenove são as mesmas pessoas. São R$ 155.500,00 na conta do governador e R$ 163.275,00 na do ex-governador, todos lançados em 16 de agosto.

PL bancou Contar e deixou Azambuja em 15º

Se a estrutura operacional exclui Contar, o dinheiro do partido faz o movimento contrário.

A Direção Nacional do PL distribuiu R$ 21,4 milhoes a 31 candidatos de Mato Grosso do Sul, a maior injeção de qualquer legenda no Estado. O maior beneficiário individual é Capitão Contar: R$ 2 milhões, ou 9,3% de tudo o que o partido mandou para MS.

Reinaldo Azambuja, o cabeça da chapa ao Senado e ex-governador por dois mandatos, recebeu R$ 500 mil do mesmo diretório, um quarto do que foi para Contar. Na lista do PL em MS, Azambuja aparece em 15º lugar, atrás de três candidatos a deputado federal que receberam R$ 1,5 milhão cada e de dez candidatos a deputado estadual.

O que compensa a diferença vem de fora do PL: Azambuja recebeu R$ 300 mil da Direção Nacional do União Brasil, partido que integra a coligação de Riedel. Foi o único candidato ao Senado em MS a receber dinheiro do União. Contar não recebeu nada de nenhum partido além do próprio PL.

O padrão se repete no PP. O diretório nacional mandou R$ 13.314.000,00 para 20 candidatos sul-mato-grossenses. Riedel, candidato à reeleição ao governo, ficou com R$ 1 milhão, 7,5% do total e o quarto maior repasse do partido no Estado, atrás dos candidatos a deputado federal Dagoberto Nogueira e Luiz Ovando, que receberam R$ 2,6 milhões cada.

R$ 2 milhões arrecadados, nenhuma despesa declarada

Com R$ 2.022.000,00, Contar é o candidato que mais arrecadou em Mato Grosso do Sul nesta eleição, à frente de Fábio Trad (PT), candidato ao governo, com R$ 1.885.924,65, e de Vander Loubet (PT), ao Senado, com R$ 1.603.411,27.

Riedel declarou R$ 1.070.000,00 arrecadados e Azambuja, R$ 1.127.500,00. Ou seja: o governador e seu padrinho político, somados, arrecadaram R$ 2.197.500,00, pouco mais do que Contar sozinho.

Mas Contar não gastou, ou não lançou. Sua prestação de contas registra receita de R$ 2,02 milhões e despesa zero. Riedel já contratou R$ 2.419.775,00 e pagou R$ 369.000,00; Azambuja contratou R$ 2.166.721,50 e pagou R$ 227.500,00, distribuídos em 406 lançamentos.

Os dados do TSE são atualizados conforme as campanhas alimentam o sistema. A ausência de despesas na conta de Contar pode significar que a campanha não gastou até 1º de setembro ou que ainda não registrou o que gastou. As duas hipóteses precisam ser respondidas pela campanha.

Quem paga o santinho

O material impresso que estampa os três lado a lado tem um único pagador declarado.

Azambuja contratou R$ 71.911,00 em publicidade por materiais impressos, em 211 lançamentos, e R$ 45.405,50 em adesivos, em 135 lançamentos.

O maior fornecedor é a J. M. F. dos Reis Comunicação Visual Ltda, com R$ 56.637,00 em 198 notas; aparecem ainda a Suriel Gráfica e Editora (R$ 37.872,00) e a Ellos Soluções Gráficas (R$ 4.235,00).

Riedel não declarou um real em material impresso ou adesivo. Contar, tampouco.

O governador concentra o gasto próprio em outro terreno: R$ 369.000,00 em impulsionamento de conteúdo, R$ 344 mil pela processadora DLocal Brasil e R$ 25 mil diretamente com a Facebook Serviços Online, e R$ 65.940,00 em atividades de militância e mobilização de rua, distribuídos em 76 lançamentos, a maioria de R$ 810,00 cada.

Azambuja declarou R$ 150 mil em impulsionamento, ambos os lançamentos com a Facebook e datados de 14 de agosto.

O patrimônio dos três

As declarações de bens entregues ao TSE em agosto colocam os aliados em faixas muito distintas e mostram trajetórias que andaram em direções opostas nos últimos quatro anos.

Reinaldo Azambuja declarou R$ 55.976.398,48 em 33 bens. É o segundo maior patrimônio entre os 424 candidatos de Mato Grosso do Sul, atrás apenas do deputado estadual Zé Teixeira (PL), com R$ 64,2 milhões. Sozinho, Azambuja responde por 8,7% de todo o patrimônio declarado pelas candidaturas do Estado. Os maiores itens: 3.343 cabeças de gado avaliadas em R$ 13.372.000,00, bens da atividade rural (R$ 8,5 milhões), benfeitorias em imóveis rurais (R$ 6,5 milhões), quatro frações de 50% de imóveis rurais (R$ 14.738.537,50 somadas), 80 mil sacas de milho (R$ 4 milhões), depósitos e investimentos (R$ 2.614.138,10) e uma aeronave Piper PA-34-220T (R$ 1,25 milhão). Em 2018, quando disputou a reeleição ao governo, declarava R$ 38.698.697,47, alta nominal de 44,6% em oito anos.

Eduardo Riedel declarou R$ 16.147.849,34 em 17 bens, o 11º maior patrimônio entre os candidatos do Estado. Em 2022, quando foi eleito governador, havia declarado R$ 20.744.288,42, uma queda nominal de 22,2%, sem considerar a inflação do período. A comparação item a item mostra o que saiu da lista: em 2022 constavam quotas da Sapé Agropastoril (R$ 3.855.075,00), um apartamento no Rio de Janeiro (R$ 1.768.436,18), a construção de uma casa (R$ 2.303.679,53) e quotas da Angraju (R$ 865.920,00). Nenhum desses itens aparece na declaração de 2026, que é dominada por bens da atividade rural (R$ 12.250.222,42) e 521 cabeças de gado (R$ 2.084.000,00).

Capitão Contar declarou R$ 1.660.693,63 em 15 bens, o 67º patrimônio do Estado. É a trajetória mais acentuada dos três: em 2018, quando foi eleito deputado estadual pelo PSL, declarou R$ 80.000,00; em 2022, ao disputar o governo, R$ 583.048,98. Do primeiro registro ao atual, alta nominal de 1.975%. Quase tudo está sobre rodas: R$ 1.408.546,01, ou 84,8% do patrimônio, são veículos, um motorhome Iveco 2024 de R$ 618.546,01, uma caminhonete BYD Shark 2025 de R$ 314.000,00, um Suzuki Jimny 2024 de R$ 200.000,00, uma moto aquática de R$ 150.000,00 e uma BMW R1250GS de R$ 110.000,00. Declara ainda 100% do capital social de uma enoteca (R$ 100.000,00), R$ 129.639,78 em renda fixa e R$ 39,79 em moeda virtual.

Para efeito de comparação: o patrimônio mediano dos 424 candidatos de MS é de R$ 140.279,54, e 143 deles declararam não ter bem algum.

A reconciliação, quatro anos depois

Em 2022, Riedel e Contar disputaram voto a voto quem representaria Jair Bolsonaro em Mato Grosso do Sul. Contar, então no PRTB, terminou o primeiro turno à frente, com cerca de 26,7% dos votos válidos contra 25,2% de Riedel, então no PSDB. No segundo turno, a máquina montada por Azambuja virou o jogo: Riedel fez 808.210 votos (56,90%) contra 612.113 (43,10%) de Contar.

Nos debates daquela campanha, Contar atacou diretamente a gestão e a honra de Riedel e de Azambuja. Quatro anos depois, os três estão na mesma coligação, “Fazendo o Futuro Acontecer”, formada pela federação União Progressista (União Brasil e PP), pelo PL, pela federação PSDB-Cidadania, além de Podemos, Avante, Republicanos, PSD e MDB.

A reaproximação foi feita em público. Em 19 de agosto, num encontro com cerca de 77 prefeitos em Campo Grande, Contar disse que se arrepende do que falou em 2022 e reconheceu que o Estado “tem sido bem administrado”. Em 24 de agosto, num ato com o senador Rogério Marinho (PL-RN) e a senadora Tereza Cristina (PP), o governador afirmou que “com Capitão Contar no Senado, teremos a interlocução necessária para acelerar nossos projetos de industrialização e inovação”.

O acerto também está nos papéis do registro. As suplências de Azambuja foram entregues a Nelsinho Trad (PSD) e Felipe Mattos (União Brasil), dois partidos da base de Riedel. As de Contar ficaram com Cláudio Mendonça e Luciano Barbosa Rodrigues, ambos do PP, o partido do governador.

O que a papelada e o discurso costuraram, a contabilidade ainda não costurou. A estrutura que Riedel e Azambuja dividem, os advogados, os contadores, a produtora, os 19 auxiliares de R$ 7.775,00, termina nos dois. O terceiro nome da chapa tem o maior caixa da eleição em MS e uma prestação de contas sem despesa.

O dinheiro da eleição em MS

Os candidatos sul-mato-grossenses declararam R$ 59.250.618,84 arrecadados até 1º de setembro. Desse total, R$ 55.816.767,90, 94,2%, vieram do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o dinheiro público. Outros R$ 528.100,00 saíram do fundo partidário e apenas R$ 2.905.750,94 (4,9%) têm origem privada, entre recursos próprios, doações de pessoas físicas e financiamento coletivo.

A distribuição por cargo inverte a hierarquia do palanque: candidatos a deputado federal ficaram com R$ 28,2 milhões e a deputado estadual, com R$ 22,6 milhões. Para o Senado foram R$ 5,4 milhões e, para o governo do Estado, R$ 3,1 milhões.

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