Donos de jato onde secretário foi flagrado têm R$ 30 bilhões em jogo no governo Riedel

Presidente da J&F, dono do avião de onde Rodrigo Perez foi flagrado na segunda, controla a mineração de Corumbá, a Eldorado em Três Lagoas e as plantas da JBS e da Seara. Cada um desses negócios tem, hoje, um pedido aberto na mesa do Estado.

A holding familiar proprietária do jato executivo onde o secretário de governo de Eduardo Riedel foi flagrado na segunda-feira tem uma longa lista de investimentos no Estado.

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Aguinaldo Gomes Ramos Filho, sócio da VL Holding, é presidente da J&F Investimentos desde abril de 2021, administrador da LHG Mining, em Corumbá, e conselheiro da Eldorado Brasil Celulose, em Três Lagoas, empresa que dirigiu antes de assumir a holding da família. Sua irmã Fabrine, sócia na holding, é quem publicou as fotos do Leilão Terra Prometida em que Rodrigo Perez aparece ao lado de Aguinaldo e do deputado Arthur Lira.

Corumbá: R$ 4 bilhões, uma licença e uma venda

A LHG Mining é a antiga mineração da Vale em Corumbá, comprada pela J&F em julho de 2022 por US$ 1,2 bilhão. Em julho de 2025, a Semadesc, do ex-secretário e candidato  a deputado federal Jaime Verruck, anunciou que a empresa projeta investir R$ 4 bilhões para dobrar a produção de minério de ferro, de 12 para 25 milhões de toneladas por ano, com 4.300 empregos na obra e R$ 350 milhões anuais em CFEM, ICMS e ISS. Verruck chamou o projeto de “investimento estruturante da região”.

A peça central é a ampliação do Terminal Privativo Gregório Curvo, no rio Paraguai: R$ 1,91 bilhão para levar a capacidade de embarque de 700 mil para 15 milhões de toneladas por ano, com supressão de 66,5 hectares de vegetação nativa, 18,9 hectares de área de preservação permanente e dragagem de 234 mil metros cúbicos.

Na audiência pública do Imasul, em 11 de junho de 2026, moradores do distrito de Porto Esperança, 54 famílias que vivem do turismo de pesca, disseram estar “sufocados” pelo pó de minério e pelo barulho da operação atual.

Dois meses depois, em 14 de agosto de 2026, o presidente do Imasul, André Borges Barros de Araújo, e o representante da LHG, Rodrigo Dutra Amaral, assinaram o Termo de Compromisso de Compensação Ambiental do projeto: R$ 21,5 milhões, calculados em 1,129% do valor do empreendimento, a serem aplicados em unidades de conservação ao longo de 48 meses.

A licença tem preço de mercado. Desde dezembro de 2025 a J&F tenta vender uma fatia minoritária da LHG. Em julho de 2026 ofereceu à Vale 45% por R$ 4 bilhões ou 30% por R$ 2 bilhões, mantendo o controle; a diretoria da Vale recusou.

O valor do que está à venda depende diretamente da capacidade licenciada, 26 milhões de toneladas, segundo o próprio grupo, e do terminal que o Imasul acaba de liberar.

Três Lagoas: R$ 25 bilhões e uma licença renovada

A Eldorado Brasil, que Aguinaldo Ramos presidiu antes de ir para a J&F, anunciou em abril de 2024, pela voz de Wesley Batista, R$ 25 bilhões para a segunda linha de celulose em Três Lagoas, 2,6 milhões de toneladas por ano a mais, além de uma ferrovia de 90 quilômetros até Aparecida do Taboado. Em junho de 2025, o Imasul renovou a licença do projeto com a capacidade ajustada de 2,3 para 2,6 milhões de toneladas e R$ 13,3 milhões de compensação ambiental ao Estado.

Riedel, Perez e Verruck indo participar da agenda de Lula na JBS, em Campo Grande

JBS e Seara: os incentivos que o Estado não abre

Em outubro de 2023, em Paris, Wesley Batista anunciou R$ 26,8 bilhões em investimentos no Estado até 2026: a linha da Eldorado, R$ 1,3 bilhão na Seara de Dourados e R$ 5,5 bilhões na mineração de Corumbá. Em março de 2024 vieram R$ 150 milhões para dobrar a unidade Campo Grande II, visitada em abril pelo presidente Lula ao lado de Wesley e do governador Eduardo Riedel.

No Estado, o programa Frango Vida devolve aos frigoríficos de 32% a 50% do ICMS. Em maio de 2026, a Semadesc registrou que a JBS sinalizou ampliar de 60 mil para 90 mil aves por dia a unidade de Caarapó.

A renúncia de receita prevista pelo governo saltou de R$ 5,58 bilhões em 2023 para R$ 11,95 bilhões em 2026, alta de 114%, e só a indústria de transformação, onde estão os frigoríficos, passou de R$ 3,17 bilhões para R$ 6,83 bilhões entre 2025 e 2026. Quanto disso é da JBS, o Estado não informa: o benefício por empresa está sob o sigilo fiscal.

Quem decide e onde entra Rodrigo Perez?

Nenhuma dessas decisões passa formalmente pela Secretaria de Governo. O licenciamento é do Imasul, vinculado à Semadesc de Jaime Verruck; os incentivos, da Semadesc e da Sefaz; a palavra final, do governador.

A Segov, criada na reforma de fevereiro de 2024, é o gabinete de articulação política de Riedel, “o guardião das diretrizes, dos valores e da execução”, nas palavras do governador ao nomear Perez. É de lá que sai a coordenação da agenda do Executivo, a relação com prefeitos, deputados e o setor produtivo, e, em ano eleitoral, a organização da campanha à reeleição, que Perez já coordenou em 2022.

É esse o cargo de quem foi fotografado no leilão da família Batista ao lado do presidente da J&F e desembarcou do jato da mesma família em Campo Grande com um segurança da Governadoria.

Enquanto o Imasul liberava o terminal de Corumbá e a Semadesc registrava a expansão da JBS em Caarapó, o secretário de Governo do Estado circulava, em jato e em leilão, com quem preside o grupo interessado.

Riedel, por sua vez, foi secretário de Governo de Reinaldo Azambuja entre 2015 e 2021, o mesmo cargo de Perez, quando a delação de Joesley e Wesley originou a Operação Vostok e a acusação de que o Estado vendia benefícios fiscais à JBS por 30% do imposto que a empresa deixava de recolher. O caso terminou sem julgamento em 2025 e 2026. Azambuja é hoje candidato ao Senado na chapa de Riedel.

A reportagem entrou em contato com a empresa, governo e secretário, mas não recebeu retorno até a publicação.

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