EXCLUSIVO: Em ano de eleição, Governo de MS acelera o pagamento de empreiteiras

Série de 93 meses do Portal da Transparência mostra que o Estado pagou R$ 960 milhões a construtoras entre abril e agosto de 2026, alta real de 24,6% depois de dois anos seguidos de queda. O mesmo salto havia ocorrido em 2022, no ciclo eleitoral anterior.

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A Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul) pagou R$ 231,2 milhões a empresas de obras em agosto de 2026. É o maior desembolso mensal do órgão com o elemento “Obras e Instalações” desde dezembro de 2023. No mesmo mês, a agência atestou R$ 232,8 milhões em medições, o que significa que praticamente tudo o que foi conferido foi também pago.

O dado vem da série mensal completa de execução da despesa da Agesul, de janeiro de 2019 a 3 de setembro de 2026, extraída pela reportagem diretamente da interface de dados do Portal da Transparência de Mato Grosso do Sul.

A campanha eleitoral de 2026 começou em 16 de agosto. Isoladamente, a cifra de agosto diz pouco. O que os oito anos de série mostram é um comportamento de janela.

Entre abril e agosto, o intervalo que antecede e abre a campanha, a Agesul pagou em 2026 o equivalente a R$ 960 milhões a preços de julho de 2026. Nos dois anos anteriores, a mesma janela havia encolhido: R$ 833,9 milhões em 2024 e R$ 770,5 milhões em 2025, ambos em valores corrigidos.

Abril a agostoLiquidadoPagoPago a preços de jul/26Variação real
2019R$ 202,1 miR$ 201,5 miR$ 201,5 mi
2020R$ 260,3 miR$ 251,2 miR$ 251,2 mi+24,6%
2021R$ 352,9 miR$ 353,1 miR$ 470,6 mi+87,4%
2022 (eleição)R$ 798,9 miR$ 772,8 miR$ 923,8 mi+96,3%
2023R$ 967,1 miR$ 981,9 miR$ 1.129,7 mi+22,3%
2024R$ 731,1 miR$ 753,2 miR$ 833,9 mi−26,2%
2025R$ 743,7 miR$ 734,1 miR$ 770,5 mi−7,6%
2026 (eleição)R$ 949,5 miR$ 955,5 miR$ 960,0 mi+24,6%

Os dois anos em que a janela abril/agosto rompeu a tendência do ano anterior foram 2022 e 2026, anos de eleicao geral, inclusive para governo.

Em 2022, o salto foi de 96,3% em termos reais. Em 2026, de 24,6%, depois de duas quedas consecutivas.Nos agostos gordos, a fotografia é semelhante: R$ 242,1 milhões em 2022 e R$ 231,2 milhões em 2026, contra R$ 140,3 milhões em 2024 e R$ 189,4 milhões em 2025, todos a preços de hoje.

Fazer obra é legal

Pagar obra contratada em ano eleitoral é legal. A Lei das Eleições (nº 9.504/1997) restringe transferências voluntárias, distribuição gratuita de bens e contratações no período, não o pagamento de medições de contratos em execução. Nada na série indica ilegalidade.

O ano de maior execução foi 2023, primeiro ano do governo Eduardo Riedel, com R$ 1,13 bilhão pagos na mesma janela a preços de hoje, 17,7% acima de 2026. O que 2026 fez foi interromper a curva de queda que vinha de 2024.

A série contém apenas dois anos eleitorais gerais (2022 e 2026). A coincidência é consistente, mas não é prova de causalidade, e a expansão de 2021 a 2023 se explica também pelo ciclo de grandes obras de infraestrutura no Estado, fomentadas com grandes empréstimos tomados do BNDES, Banco do Brasil, BID e com garantias do Governo Federal.

Quem recebeu?

Nos 93 meses, 309 empresas receberam pagamento de obra pela Agesul. A concentração, porém, é alta, e dez construtoras ficaram com boa parte do bolo.

ConstrutoraTotal 2019–2026 (preços de jul/26)
Vale do Rio Novo Engenharia e ConstruçõesR$ 787,9 mi
Engenharia e Comércio BandeirantesR$ 677,4 mi
Engepar Engenharia e ParticipaçõesR$ 660,5 mi
LCM Construção e ComércioR$ 423,4 mi
Construtora São CristóvãoR$ 378,5 mi
Via MagnaR$ 360,3 mi
Equipe EngenhariaR$ 344,4 mi
BTG Empreendimentos, Locações e ServiçosR$ 330,7 mi
A. L. dos Santos & CiaR$ 294,2 mi
Avance ConstrutoraR$ 236,6 mi
Construtora Luiz CostaR$ 230,8 mi
Construtora PerfilR$ 214,5 mi
Transenge Engenharia e ConstruçõesR$ 210,5 mi
Nosde EngenhariaR$ 193,4 mi
Galassi EmpreendimentosR$ 191,6 mi

A maior contratada do período é paulista: a Vale do Rio Novo Engenharia e Construções, de São Paulo, com R$ 787,9 milhões. Das quinze, sete têm sede em Campo Grande e somam R$ 2,27 bilhões; sete são de fora do Estado e somam R$ 3,07 bilhões.

Via Magna Infraestrutura, de Belo Horizonte, recebeu R$ 131 milhões em 2023 e R$ 87 milhões em 2024, a preços de hoje. Em 2026, recebeu zero. Em 21 de maio de 2026, a Agesul publicou processos administrativos sancionatórios contra a empresa, por trincas e deterioração do asfalto no contrato 125/2021, defeitos que teriam persistido depois de notificação técnica.

No mesmo lote foram sancionadas a Engenharia e Comércio Bandeirantes, de São Carlos (SP), pelo contrato 229/2020. Sancionada no mesmo ato, a Bandeirantes seguiu recebendo, R$ 63 milhões em 2026, a segunda maior contratada do período.

Construtora São Cristóvão, de Goiânia, recebeu R$ 156 milhões em 2023 e R$ 95 milhões em 2024. Em 2026, zero. A empresa teve cinco contratos com a Agesul, todos encerrados; o último venceu em 13 de agosto de 2025. Desde então não tem nenhum contrato em vigor com a agência e não venceu licitação nova.

A Construtora São Cristóvão venceu a licitação em 2022 para pavimentar o primeiro lote da rodovia MS-347. A Construtora Perfil (sua parceira de consórcio em Goiás) venceu, em fevereiro de 2024, a licitação para pavimentar o segundo lote (31 km) da mesma rodovia (MS-347), em um contrato de R$ 151 milhões.

As duas empresas, que operam juntas em Goiás como “Consórcio Perfil-CSC”, atuam em trechos contíguos da mesma obra em MS.

Em fevereiro de 2026, a Agesul contratou a Bandeirantes por R$ 145,2 milhões para implantar e pavimentar a MS-316 entre o limite de Chapadão do Sul e Inocência, a mesma rodovia em que a São Cristóvão trabalhou, em subtrecho diverso.

A Construtora Perfil não recebeu um centavo de obra da Agesul entre 2019 e 2024. Assinou em fevereiro de 2025 o contrato da MS-347, implantação e pavimentação entre o limite de Dois Irmãos do Buriti e Anastácio, com vigência iniciada em 2 de abril daquele ano.

Recebeu R$ 138 milhões em 2025 e R$ 76 milhões em 2026, entrando no grupo das quinze maiores contratadas do período com um único contrato. Em 24 de julho de 2026, um aditivo elevou o valor do contrato a R$ 163,87 milhões, reajuste de cerca de 8,5%, acima da variação do INCC de 6,71% a 6,78% nos doze meses até junho.

Também tem o contrato da MS-355, por R$ 230,44 milhões, com o consórcio Perfil HDO.

Entre abril e agosto de 2026, o Estado atestou R$ 949,5 milhões em medições e pagou R$ 955,5 milhões. Paga-se ligeiramente mais rápido do que se confere. E o dinheiro está mais espalhado. São 152 empresas que receberam nessa janela em 2026, contra 116 em 2025.

Quem assinava, e quem foi preso.

A aceleração de 2026 começa em março, quando a Agesul pagou R$ 211,8 milhões em obras, até então o maior mês do ano. Em fevereiro daquele ano, a direção-presidência da agência havia sido assumida por Rudi Fiorese, ex-secretário de Obras (Sisep) da Prefeitura de Campo Grande.

Em 15 de maio de 2026, Fiorese foi preso na Operação Buraco Sem Fim, do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, acusado de comandar um esquema de fraude em contratos de tapa-buraco da capital entre 2018 e 2025, segundo a acusação, por meio de medições infladas.

A empresa citada na investigação é a Construtora Rial, que acumulou R$ 113,7 milhões em contratos municipais no período e está proibida por decisão judicial de participar de licitações em Campo Grande. Fiorese foi substituído por Gil Márcio Franco.

O contrato 22552, da Construtora Luiz Costa, de Mossoró (RN), no valor de R$ 84,2 milhões, foi firmado por dispensa de licitação em 14 de dezembro de 2023 e segue vigente até março de 2027. O objeto é a implantação e pavimentação asfáltica da rodovia MS-162, entre a BR-267 e a MS-270. É a única dispensa entre os 112 contratos e o oitavo maior valor do conjunto.

Campeões

Os maiores contratos do período são de pavimentação e restauração de rodovias estaduais: a MS-338 com a Vale do Rio Novo (R$ 219,3 milhões, de março de 2023); a MS-347 com a Construtora Perfil (R$ 163,9 milhões, de abril de 2025); a MS-316 com a Bandeirantes (R$ 145,2 milhões, de fevereiro de 2026); a MS-290 com a Nosde (R$ 85,7 milhões).

Dois trechos foram repartidos entre empresas diferentes no mesmo período. A MS-436 foi dividida em março de 2025 entre a Vale do Rio Novo (R$ 141,4 milhões) e a LCM (R$ 125,7 milhões). A MS-276 ficou com a Engepar (R$ 80,6 milhões, março de 2025) e a Bandeirantes (R$ 95,9 milhões, maio de 2025).

O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) aponta que a LCM Construção e Comércio coordenava fraudes em concorrências do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. A Ética Construtora, que tocou diversas obras no norte do Estado, também é investigada por formação de cartel.

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