Parcelas do cartão ligado ao Banco Master não saíram do salário de agosto. Governo atribui a interrupção a impasse contratual da PKL One, e não a decisão própria; credenciamento vale até março de 2027.
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Os servidores estaduais de Mato Grosso do Sul que carregam contratos do cartão Credcesta, produto do Banco Master, não tiveram as parcelas descontadas do salário de agosto.
O deputado estadual Pedro Kemp (PT), autor do projeto de lei para cancelar os descontos, informou e a Secretaria de Estado de Administração (SAD) confirmaram a interrupção, mas o motivo declarado não é uma decisão do governo.
Seria, na verdade, que a PKL One Participações S.A., empresa que aparece no eConsig como consignatária dos contratos, deixou de manter contrato com a terceirizada que opera o sistema de consignações dos servidores estaduais. Enquanto o impasse não for resolvido, os valores ficam fora da folha. A dívida continua existindo; o que parou foi apenas a cobrança automática no contracheque.
A suspensão chega mais de nove meses depois de o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial do Master, em 18 de novembro de 2025, e mais de seis meses depois de o mesmo BC liquidar, em 18 de fevereiro de 2026, o Banco Pleno, do empresário Augusto Lima, para onde a operação do Credcesta havia migrado. Durante todo esse período, os descontos seguiram normalmente, amparados em um convênio que o Estado renovou em março de 2025 e nunca cancelou.
Credenciamento que atravessou duas liquidações
O Diário Oficial do Estado registra dois atos entre a SAD e a PKL One. O primeiro é o Convênio nº 009/2023, assinado em 1º de março de 2023 pela então secretária de Administração, Ana Carolina Araujo Nardes, e pela representante da empresa, Ana Paula de Almeida Pithon, e publicado em 14 de março daquele ano.
O objeto é credenciar a empresa “para permitir a averbação de consignações na folha de pagamento dos servidores do Poder Executivo do Estado”. O extrato identifica a consignatária como “Banco PKL One Participações S.A.”, embora a empresa não conste da lista de instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central, como um juiz da 2ª Vara Bancária de Campo Grande viria a registrar em decisão de setembro de 2025.
O segundo é o Termo de Convênio de Consignação em Folha nº 005/2025, assinado em 11 de março de 2025 pelo secretário Frederico Felini, por Ana Paula de Almeida Pithon e por Andrea Lima Novaes, publicado no dia seguinte, com vigência até 10 de março de 2027. Em nenhum dos dois atos aparece a palavra “Credcesta”, nome que o servidor vê no contracheque e nas propagandas.
A renovação foi feita quando o Master já estava sob cerco do próprio Banco Central. Na resposta que enviou ao Tribunal de Contas da União sobre a liquidação, o BC informou que sua fiscalização identificava vulnerabilidades no banco desde 2023, quando detectou indícios de fraude comunicados ao Ministério Público, e que ao longo de 2024 e 2025 restringiu a captação, exigiu aportes de capital e rejeitou operações por problemas na origem dos recursos. Oito meses depois da assinatura do convênio, o BC liquidou o banco citando “grave crise de liquidez” e “violações às normas” do sistema financeiro.
Desde julho deste ano uma resolução da SAD proíbe o credenciamento de novas empresas de consignado. A medida “Institui Grupo de Trabalho para estudo e apresentação de propostas de medidas para combate ao superendividamento de servidores públicos do Poder Executivo do Estado de Mato Grosso do Sul em decorrência de consignações em folha de pagamento”.
Os contratos antigos continuaram sendo descontados, e o credenciamento da PKL One permaneceu válido.
Projeto de lei na Assembleia
Em 23 de junho, o deputado estadual Pedro Kemp (PT) protocolou na Assembleia Legislativa o Projeto de Lei 88/2026, que determina a suspensão de todos os descontos em folha decorrentes de cartão de crédito consignado e de empréstimos consignados vinculados ao Credcesta, ao Banco Master e a empresas coligadas, para servidores ativos, aposentados e pensionistas da administração direta, autárquica e fundacional.
A justificativa cita reportagem publicada na véspera sobre a continuidade dos descontos e afirma que o projeto “não extingue contratos particulares nem impede eventual cobrança pelos meios legais. Apenas retira, temporariamente, o privilégio da cobrança automática na folha de pagamento até que sejam esclarecidas a legitimidade da consignação e a regularidade dos contratos”.
Pelo texto, a suspensão duraria até que fosse definida a instituição responsável pela gestão dos contratos, garantido ao servidor acesso ao contrato, ao demonstrativo do débito e à memória de cálculo, e comprovada a regularidade da consignatária perante o Estado. No início de julho, Kemp cobrou do Executivo uma medida administrativa mais rápida do que a tramitação do projeto, que segue na Casa: “São pessoas desesperadas, sem saber a quem recorrer. Recebi inúmeras denúncias de servidores que dizem não ter autorizado essas operações”.
O Judiciário já sentia o volume. Consulta aos sistemas do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul mostra que as ações envolvendo a PKL One e o Banco Master passam de mil, a maioria de servidores e aposentados que pedem revisão de contratos ou alegam cobranças abusivas; parte deles foi reconhecida como superendividada. Uma ação coletiva da Federação Sindical dos Servidores Públicos Estaduais e Municipais (Feserp) pedia que o Estado e a Prefeitura de Campo Grande suspendessem os repasses ao Master e ao Credcesta diante das suspeitas de fraude, mas a 2ª Vara de Direitos Difusos da Capital negou o pedido por entender que a entidade não tinha legitimidade para representar todos os servidores atingidos.
Um produto em 24 estados e sob investigação da PF
O Credcesta nasceu na Bahia em 2018, com autorização exclusiva do governo estadual, e, segundo o balanço do Master de 2024, chegou a operar em 24 estados e 176 municípios, sempre por convênios de consignação em folha com governos e prefeituras. Só no Tribunal de Justiça da Bahia há mais de 10 mil ações de servidores contra o produto. O modelo é o mesmo em todos os lugares: cartão de crédito rotativo com desconto automático em folha, contratado com frequência por telefone e por servidores idosos, que acreditavam ter feito um empréstimo com prazo definido e passaram anos pagando parcelas que não amortizavam a dívida.
Em 18 de junho de 2026, a nona fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, cumpriu 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal com foco nas suspeitas de fraude no Credcesta, tendo entre os alvos o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o empresário Augusto Lima. A Polícia Federal apura ainda a venda de R$ 12,2 bilhões em operações de crédito do Master ao Banco de Brasília (BRB), com contratos do Credcesta entre os ativos negociados. Até agora, o Paraná foi o único estado a bloquear os descontos do Credcesta em folha logo após a liquidação do Master; no Rio de Janeiro, projeto semelhante ao de Kemp tramita na Assembleia Legislativa.
Em Campo Grande, a PF chegou ao caso Master por outra via. Em 25 de agosto, a Operação Presciência cumpriu seis mandados de busca e apreensão na sede do Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande (IMPCG), no gabinete e na residência da vice-prefeita Camila Nascimento, que presidiu o instituto até abril de 2024. A investigação apura suspeitas de gestão temerária e corrupção na aplicação de R$ 1,2 milhão do regime próprio de previdência dos servidores municipais em letras financeiras do Master, a partir de auditoria do Ministério da Previdência.
A operação não trata do Credcesta, mas fecha o desenho do escândalo em Mato Grosso do Sul: de um lado, previdências municipais que aplicaram no banco; de outro, servidores estaduais que tiveram o salário descontado, mês após mês, em favor de uma empresa do mesmo conglomerado, com a chancela de um convênio que o Estado renovou e ainda mantém.
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