Flagrado em avião da família da JBS, secretário de Riedel já esteve em leilão com os Batista e Arthur Lira

Rodrigo Perez, secretário de Governo e braço direito do governador, aparece em foto do Leilão Terra Prometida ao lado do ex-presidente da Câmara e do presidente da J&F. O leilão é organizado em parceria pela mesma família que opera o jato do qual ele foi filmado desembarcando em Campo Grande

 

O secretário de Governo e Gestão Estratégica de Mato Grosso do Sul, Rodrigo Perez Ramos (PP), aparece em uma foto de leilão de gado nelore ao lado do deputado federal Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara, e do presidente da J&F, Aguinaldo Gomes Ramos Filho, no Leilão Fazenda Terra Prometida 2026, um dos maiores eventos de pecuária e genética da raça Nelore do país, promovido pela Agro Paranã, empresa de agro da holding proprietária do avião, e pela dupla sertaneja Henrique & Juliano em Porto Nacional, no Tocantins.

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A foto integra uma sequência publicada no Instagram por Fabrine Batista Ramos Moreira e replicada pelo criador de nelore Murilo Gibertoni. Na postagem estão marcados os perfis de Arthur Lira e de Aguinaldo Gomes Ramos Filho, presidente da J&F, a holding da família Batista que controla a JBS. Perez está no canto direito da imagem, num grupo de mais de dez pessoas posando diante de um painel da raça.

Não é uma coincidência de sobrenomes. Fabrine é sobrinha de Joesley Batista e sócia da VLBM Participações Ltda., a empresa que opera o jato executivo do qual Perez foi filmado desembarcando no Aeroporto Internacional de Campo Grande no feriado de 7 de Setembro. Aguinaldo Gomes Ramos Filho é irmão de Fabrine e sócio da mesma VLBM. E o leilão em que os três posaram juntos não é um evento alheio à família: é organizado em parceria por ela.

O avião

O episódio do desembarque veio a público em 7 de setembro, num vídeo divulgado pelo deputado estadual João Henrique Catan (Novo), candidato ao governo. A aeronave é um Embraer Phenom 300E, matrícula PS-VFA, fabricado em 2024.

Segundo o Registro Aeronáutico Brasileiro, da Anac, o avião pertence ao Bradesco Leasing, em arrendamento firmado em março de 2025, e é operado pela VLBM Participações. A VLBM, hoje apresentada como VL Holding, foi criada em 2005, no planejamento sucessório do patriarca José Batista Sobrinho, o “Zé Mineiro”, e opera de forma independente da J&F. Seus sócios são Valère Batista Mendonça Ramos, filha do fundador da JBS e irmã de Joesley e Wesley, com 10% do capital; e os dois filhos dela, Fabrine, a mesma que publicou as fotos do leilão, e Aguinaldo, presidente da J&F desde abril de 2021, com 45% cada. O executivo-chefe da holding é Daniel Moreira, marido de Fabrine.

Mas a VL Holding não é pequena: sua principal empresa, a Agroparanã, com sede em Iaciara (GO), reúne 55 mil hectares em Goiás e no Piauí, com criação de nelore, confinamento, soja, milho, fábrica de ração e laboratório de fertilização in vitro. Em 2024, a holding criou a Stratos e comprou o Complexo Taquari-Vassouras, em Sergipe, a única mina de potássio em operação no Brasil.

A Segov não confirmou nem desmentiu que o passageiro do vídeo era o secretário, não informou a origem e o destino do voo e não esclareceu se a viagem tinha caráter oficial. No vídeo, Perez é visto com uma equipe de supostos integrantes da Casa Militar, que carregam malas para o secretário.

O leilão é da família

O Leilão Terra Prometida é promovido pela Nelore H&J, de Henrique & Juliano, em parceria com a Nelore Paranã, a marca de gado da Agroparanã, cuja sede é a Fazenda Eldorado, em Iaciara. A parceria existe desde 2022, quando a primeira edição faturou R$ 39,5 milhões com 108 animais. Em 2025, a quarta edição, de 23 a 25 de maio, bateu recorde: R$ 137,5 milhões. Em 2026, de 22 a 24 de maio, foram R$ 133 milhões.

A família que opera o jato em que Perez foi filmado é co-anfitriã do leilão em que Perez aparece fotografado. Não há registro de que o secretário tenha ido ao Tocantins a serviço, o Portal da Transparência do Estado não mostra diária sua para lá em 2025 nem em 2026.

Lira, o gado e a J&F

A presença de Arthur Lira no circuito não é inédita. Em 2022, o deputado vendeu gado a um executivo do grupo J&F em leilão. Lira movimentou R$ 6,2 milhões em um ano com a venda de touros e cavalos de raça.

Em março deste ano, veio a público que a Archon S/A, empresa aberta em maio de 2025 por um filho do parlamentar, com capital social de R$ 100 mil, recebeu R$ 250 mil da J&F em pagamentos feitos entre fevereiro e outubro de 2025. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) classificou a movimentação como atípica em relatório de inteligência financeira, apontando “incompatibilidade entre atividade econômica e transação”.

JBS em Mato Grosso do Sul

Em outubro de 2023, Wesley Batista anunciou em Paris R$ 26,8 bilhões em investimentos no Estado até 2026, entre eles a segunda linha da Eldorado em Três Lagoas (R$ 20 bilhões), a ampliação da Seara em Dourados (R$ 1,3 bilhão) e a mineração em Corumbá (R$ 5,5 bilhões).

Em março de 2024, a empresa anunciou R$ 150 milhões para dobrar a produção da unidade Campo Grande II. Em abril, o presidente Lula visitou a fábrica guiado por Wesley Batista, ao lado do governador Eduardo Riedel.

Em dezembro de 2025 a Câmara de Campo Grande aprovou e em janeiro de 2026 a prefeita Adriane Lopes (PP) sancionou isenção de ISS sobre as obras da JBS no Jardim Tarumã e de IPTU por nove anos. Em agosto, a Câmara de Conciliação Fiscal do município negou, por unanimidade, um pedido da empresa para renegociar dívida de IPTU com desconto, citando a “elevada capacidade econômica da empresa e o inadimplemento tributário reiterado”.

Pelo programa estadual Frango Vida, criado em 2022, os frigoríficos enquadrados recebem de volta de 32% a 50% do ICMS. Em maio de 2026, a Semadesc registrou que a JBS sinalizou ampliar de 60 mil para 90 mil aves por dia a unidade de Caarapó.

A renúncia de receita prevista pelo Estado saltou de R$ 5,58 bilhões em 2023 para R$ 11,95 bilhões em 2026, alta de 114%. Só a indústria de transformação, onde estão os frigoríficos, passou de R$ 3,17 bilhões para R$ 6,83 bilhões entre 2025 e 2026. Quanto desse total é da JBS, o Estado não informa: o benefício por empresa é protegido pelo sigilo fiscal do artigo 198 do Código Tributário Nacional.

O que a chapa governista prefere não lembrar?

Foi a delação dos irmãos Batista, homologada pelo Supremo em 2017, que originou a Operação Vostok e a acusação de que o governo de Mato Grosso do Sul vendia benefícios fiscais à JBS por 30% do imposto que a empresa deixava de recolher.

O denunciado era Reinaldo Azambuja, hoje candidato ao Senado na coligação de Riedel, e de quem Riedel foi secretário de Governo entre 2015 e 2021, exatamente o cargo que Perez ocupa agora. O caso terminou sem julgamento: o ministro Dias Toffoli trancou a ação penal em outubro de 2025, o Ministério Público Federal pediu o arquivamento em janeiro e a Justiça Eleitoral extinguiu o processo contra os demais réus em 18 de junho deste ano.

Frequentar um leilão ou voar em aeronave particular de terceiros não é, por si, irregular. Mas, quando a viagem e a convivência envolvem quem tem interesse direto em decisões fiscais do governo, a questão passa a ser tratada pelo Código de Conduta da administração estadual e pela Lei de Improbidade Administrativa. A JBS é beneficiária de decisões do Estado e do município.

A reportagem procurou a Secretaria de Governo e Gestão Estratégica, o governador Eduardo Riedel, a J&F, a VL Holding e o gabinete do deputado Arthur Lira. O espaço segue aberto.

 

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