O escândalo que afastou a cúpula da Santa Casa foi iniciado após denúncias, de médicos e do conselho fiscal da instituição, sobre irregularidades em contratos e supostos desvios que passariam de 10 milhões de reais. As denúncias coincidiram com a crise enfrentada pelo hospital e com diversos pedidos de verbas extras para fechar as contas, intermediadas pelo MP com a prefeitura e o governo do Estado.
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A presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, o diretor administrativo-financeiro Rinaldo Hakme Romano, o diretor administrativo Alessandro Dias Junqueira, o diretor de finanças adjunto Paulo Guilherme Gutierrez Mariosa e a supervisora do arquivo médico Monique Gregório de Oliveira foram presos preventivamente na sexta-feira (11), na Operação Antidotum, deflagrada pelo Ministério Público Estadual com o Gaeco e o Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc).
A juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias, também decretou a prisão do empresário Maurício Aparecido Benites, dono da Redvalue Tecnologia, e afastou das funções o advogado Paulo da Cruz Duarte e a administradora do plano Santa Casa Saúde, Beatriz Lemes da Silva. Foram expedidos mandados de busca para 35 endereços, entre eles o próprio hospital, a sede da operadora de saúde em Campo Grande e sua filial em Dourados.
A representação do MP é assinada pelos promotores Adriano Lobo Viana de Resende, Jorge Ferreira Neto Júnior, Luciano Bordignon Conte e Humberto Lapa Ferri.
O trabalho de investigação descreve o que chama de “organização criminosa estruturada, com comando definido, divisão de tarefas, estabilidade e finalidade econômica”, operando em duas frentes desde que Alir assumiu a presidência do maior hospital filantrópico do Estado, em janeiro de 2023.
Na primeira, o contrato de R$ 150 mil mensais com a Redvalue para digitalizar prontuários. Na segunda, os contratos da operadora de planos Santa Casa Saúde, controlada pela Santa Casa, com nove empresas ligadas ao advogado Paulo Duarte, sócio de Alir em um escritório de advocacia. Os crimes apontados, em tese, são peculato, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, fraude em contratação e organização criminosa. Ninguém foi denunciado ainda.
Cotação de um homem só
A investigação começou com a apuração do Conselho Fiscal da própria Santa Casa, que em agosto de 2025 constatou que a Redvalue havia digitalizado 1,77 milhão de páginas entre janeiro e abril daquele ano, o que, a R$ 0,05 a página, valia R$ 88,6 mil, e recebido quatro notas de R$ 150 mil, totalizando R$ 600 mil.
A cotação de preços que sustentou a contratação, em agosto de 2024, teve quatro empresas. Três delas, segundo o MP, pertenciam ao mesmo grupo: a Redvalue, com sede formal em Goiânia; a EXBE Finance & Technology, instalada na Rua Eduardo Santos Pereira, a mesma da Santa Casa; e a Infortech Informática, que tem contratos milionários com o Governo do Estado.
Benites se apresenta em documento interno como “CEO do Grupo Exbe – Redvalue”, foi diretor executivo da Infortech de 2017 a agosto de 2024 e, ao mandar a documentação da Redvalue para a Santa Casa, copiou o próprio e-mail no domínio da Infortech. As propostas da Redvalue e da EXBE têm o mesmo texto. A Infortech transferia dinheiro para a EXBE para pagar aluguel de carro e folha.
Mais do que participar da cotação, a empresa escreveu o contrato. Em 27 de agosto de 2024, dois meses antes da assinatura, Benites enviou a Rinaldo Romano a minuta do instrumento e, a pedido do diretor, a versão editável em Word.
Em áudio recuperado do celular, Rinaldo pede a Benites o e-mail da Redvalue para que o setor de Compras refaça o pedido de orçamento às três empresas, “porque a doutora pediu para entrar pelo Compras”. Em 22 de outubro, sete dias antes da assinatura, o diretor avisa o empresário: “já está tudo certo, já passou, já teve toda a questão do conselho… a doutora mesmo me cobrou ontem, falei para ela que estava tudo na mesa dela já”.
“A caneta está com a gente”
O então vice-presidente da Santa Casa, Jary de Carvalho e Castro, aparece como interlocutor direto do empresário. Quando Benites reclama que uma funcionária da área de tecnologia resistia ao novo sistema, Jary responde: “Ela pode até estar com eles, mas nós não estamos, né? E a caneta está com a gente. Então fica tranquilo”. Em 8 de abril de 2025, ele explica a Benites por que não podia pagar R$ 1,8 milhão de uma vez: “estou com a fiscalização em cima, estou com o governo em cima, estou com a auditoria em cima”, e promete ver com Rinaldo “como é que a gente faz para pagar uma parte para você”. Na mesma mensagem, diz que “a emenda que vinha direcionada para a digitalização desviou e foi para São Paulo” e que os R$ 25 milhões da bancada federal, então recém-liberados, tinham de ir para médicos e remédios.
O MP pediu a prisão de Jary, mas a juíza negou: ele deixou a diretoria em janeiro de 2026 e, sete meses depois, a promotoria não demonstrou que ele ainda tivesse como interferir na prova.
Os pagamentos vieram entre maio e junho de 2025, com atestados de execução assinados por Monique, Alessandro e Rinaldo, a Santa Casa pagou as quatro notas e lançou “adiantamentos” à Redvalue; o MP contabiliza R$ 750 mil no período, contra R$ 88,6 mil de serviço, e chama a diferença de R$ 661,4 mil de “prova inconteste do peculato”.
Em 5 de fevereiro daquele ano, Monique havia avisado por escrito ao fiscal do contrato que não havia páginas digitalizadas nem meio de validar a nota 61. A nota foi paga mesmo assim. Em agosto, o Conselho Fiscal recomendou suspender o contrato e apurar responsabilidades.
Presidente atestou trabalho
Alir manteve o contrato e, em 18 de fevereiro de 2026, informou à 49ª Promotoria que a Redvalue trabalhava “com diligência, certificação legal e a segurança exigidas”. Naquele mesmo dia, a EXBE mudou de dono na Junta Comercial: passou de Benites para Fernanda de Freitas Diniz, companheira dele, ex-empregada da Infortech.
Em março de 2026, um mês depois de instaurado o procedimento criminal, a Santa Casa fez dois Pix à Redvalue, de R$ 563,1 mil e R$ 422,3 mil. Até 18 de fevereiro, segundo memorando da própria Monique, a empresa tinha digitalizado 3,8 milhões de páginas em 16 meses, ou R$ 190,9 mil pelo preço contratado.
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