OPERAÇÃO ANTIDOTUM – Servidores da prefeitura e do Estado sacaram milhões em espécie de contas da empresa contratada pela Santa Casa

Quebra de sigilo mostra saques em série de R$ 49.999, um real abaixo do limite de comunicação ao Coaf, feitos por oito pessoas ligadas ao dono da Redvalue; MP fala em lavagem de dinheiro.

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A conta da Redvalue Tecnologia, que recebeu pelo menos R$ 1,7 milhão da Santa Casa de Campo Grande desde 2025, “não era utilizada para custear uma estrutura empresarial compatível com o contrato milionário”, afirma o Ministério Público na representação que resultou na Operação Antidotum. 

“Funcionava como conta de passagem, os valores ingressavam e, logo em seguida, eram retirados em espécie ou transferidos para empresas e pessoas físicas vinculadas ao núcleo comandado por Maurício Aparecido Benites.”

A análise, feita com base na quebra dos sigilos bancário e fiscal autorizada em outro processo cautelar, identificou um padrão: dezenas de saques e transferências de exatamente R$ 49.999, valor um real inferior ao patamar de R$ 50 mil a partir do qual os bancos são obrigados a comunicar operações em espécie ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). 

“A repetição do mesmo limite demonstra fracionamento deliberado das movimentações”, diz o MP. A juíza May Melke Siravegna anotou que a coincidência “sugere a adoção de estratégia voltada à fragmentação artificial dos recursos”.

Oito pessoas físicas aparecem retirando dinheiro das contas da Redvalue, da EXBE e de Benites entre janeiro de 2024 e janeiro de 2026. O maior volume é de Alípio Carlos de Brito, com R$ 2.197.061 milhões em 48 operações; seu filho, Claudinei Simioli de Brito, também recebeu transferências “que totalizaram valores milionários”, segundo a peça. 

Geraldo Afonso de Andrade Júnior, cujo currículo foi encontrado nos arquivos digitais de Benites, sacou R$ 955.583 em 23 operações, dez delas de R$ 49.999 em setembro, outubro e novembro de 2025. 

Valdenir Rogério Cardoso, empregado da EXBE com salário de R$ 2.400, fez 16 saques que somam R$ 676 mil. Jean Carlos da Silva Macedo, diretor de tecnologia da Redvalue e ao mesmo tempo empregado da EXBE, sacou R$ 49 mil.

Três são servidores públicos. Márcio de Melo Hamana, lotado na Secretaria Municipal de Administração e Inovação de Campo Grande, fez 17 saques entre outubro de 2024 e março de 2025, num total de R$ 761.999, a maioria de R$ 49 mil. 

Tatiana Rodrigues de Souza, servidora da Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos (AGEMS), com remuneração de R$ 11,5 mil, sacou R$ 575.380 em oito operações, quatro delas de R$ 100 mil. 

Aleida Resende Alves Gonçalves Moreno, da Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano (Planurb), recebeu dois Pix e fez dois saques que somam R$ 211.989 em abril e maio de 2025, exatamente quando a Santa Casa preparava o primeiro pagamento à Redvalue. Márcio Juvanio da Silva sacou R$ 129.999 em três operações no fim de 2025.

“As movimentações não correspondem a pagamentos empresariais regulares”, escreve o MP. “Não foram identificadas contraprestações, contratos, notas fiscais, vínculos comerciais ou justificativas econômicas capazes de explicar por que empregados, servidores públicos e pessoas físicas ligadas ao grupo retiraram ou receberam valores tão elevados. A função dessas pessoas no fluxo financeiro foi converter, pulverizar e afastar o dinheiro das contas diretamente vinculadas às empresas contratadas.”

As tabelas do MP começam em janeiro de 2024, nove meses antes do contrato com a Santa Casa, e incluem saques diretos de Benites e da EXBE. A promotoria não atribui todo o volume ao dinheiro do hospital; trata as três empresas como “um único grupo econômico” com “circulação de recursos entre elas, em camadas de transferências e saques”. Os dados foram apresentados como preliminares. Todas as oito pessoas tiveram as residências incluídas nos mandados de busca; nenhuma teve prisão pedida.

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