OPERAÇÃO ANTIDOTUM – “A caneta está com a gente”, conversas mostram diretores combinando contrato e pagamentos com empresário; confira os áudios

Mensagens obtidas com autorização judicial revelam que a Redvalue escreveu a própria minuta, sabia da aprovação antes do Comitê de Contratos e negociava o parcelamento de R$ 1,8 milhão com o vice-presidente do hospital

A investigação que levou à Operação Antidotum sustenta parte de suas conclusões em áudios e mensagens extraídos dos celulares de diretores da Santa Casa de Campo Grande e do empresário Maurício Aparecido Benites, dono da Redvalue Tecnologias. 

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Segundo o Ministério Público, as conversas mostram que a contratação de R$ 150 mil mensais para digitalizar prontuários “foi fabricada dolosamente a partir de documentos fornecidos pela própria empresa previamente escolhida”.

O primeiro registro é de 27 de agosto de 2024. Benites manda a Rinaldo Hakme Romano, diretor administrativo-financeiro, a minuta do contrato que a Santa Casa assinaria dois meses depois, e, a pedido dele, a versão editável em Word. Em outro áudio, Rinaldo pede o e-mail da Redvalue para que o setor de Compras refaça formalmente a cotação com “as duas empresas e mais essa Redvalue”, porque “a doutora pediu para entrar pelo Compras. Então é o Rafael do Compras que vai mandar o e-mail pra você”. Para o MP, a prova “confirma que o setor de Compras foi inserido posteriormente no fluxo documental de uma contratação que já vinha sendo articulada diretamente entre o gestor interno e o empresário beneficiado”.

Em 9 de outubro, Benites pergunta ao vice-presidente Jary de Carvalho e Castro se deve cobrar Rinaldo: “não cobrei ele porque eu sabia que você ia fazer isso”. Jary responde: “falei com ele ontem à noite, eu estava em Brasília… ele passou para a doutora Alir assinar a diretoria, está tudo ok”. Em 22 de outubro, Rinaldo: “já está tudo certo, já passou, já teve toda a questão do conselho, de tudo, agora é bem tranquilo… é só questão da assinatura”. O contrato foi assinado em 29 de outubro.

Quando o empresário relata que uma funcionária de tecnologia da Santa Casa, ligada ao sistema Soul MV, “ia buzinar”, Jary o tranquiliza: “Ela pode até estar com eles, mas nós não estamos, né? E a caneta está com a gente”. A juíza May Melke Siravegna considerou o elemento “bastante expressivo”.

O áudio central é de 8 de abril de 2025. Jary explica a Benites que “dentro do pacote de R$ 25 milhões veio esse R$ 1,8 milhão da senadora, só que específico para pagamento prioritário dos médicos e medicamento”. “Não tem como pagar um milhão e oitocentos cash, não tem, porque eu estou com a fiscalização em cima, estou com o governo em cima, estou com a auditoria em cima”, diz, e promete: “na segunda e na terceira [parcela], eu vou ver com o Rinaldo como é que a gente faz para pagar uma parte para você… nós vamos fazer das tripas, coração”.

O MP observa que, nesse momento, a inexecução do contrato já era conhecida internamente e que a conversa “demonstra que a liberação dos recursos não decorria da execução e medição dos serviços, mas de tratativas diretas”. No mês seguinte, a Santa Casa pagou R$ 281,5 mil à empresa; em junho, mais R$ 281,5 mil.

O aditivo que triplicou o preço da página e cortou a meta em dois terços também foi combinado antes. Em 22 de maio de 2025, Rinaldo avisa Benites: “o aditivo eu já vou passar na terça-feira no Comitê de Contratos. O Guilherme está sabendo, que é o presidente do comitê, e aí ele falou, não, não, vamos passar logo, que eu já assino isso daí”. O pedido formal foi protocolado no dia seguinte por Rinaldo e Alessandro Junqueira. A Coordenação de Custos rejeitou a mudança em 23 de junho; dois dias depois, o hospital pagou mais duas notas.

As mensagens indicam que o grupo já preparava um novo negócio. Em 17 de abril de 2025, Benites descreve a Jary a estratégia para substituir o sistema hospitalar Soul MV por um sistema seu, testado primeiro na ProntoMed, “ideia do Danilo”, o gerente de TI, e diz que precisa “chancelar isso” com ele e Rinaldo e “levar essa estratégia para Alir”. 

Em 22 de maio, Rinaldo comunica: “já está aprovado os quatro sistemas, tá? Eu consegui falar e aí já está aprovado… aí aproveitar e falar do seu sistema já, que eu falei que está pronto, que já dá para trocar MV”. Para o MP, “primeiro os integrantes ajustavam entre si o negócio, definiam sua aprovação e comunicavam o resultado ao empresário. Depois promoviam os atos internos necessários para conferir aparência formal à decisão já tomada”.

Jary deixou a Santa Casa em janeiro de 2026. A juíza negou sua prisão por falta de risco atual, “sem prejuízo da adoção de medidas cautelares diversas”. Os áudios são citados na decisão judicial; as defesas ainda não tiveram acesso aos autos, que o MP pediu para tornar públicos na sexta-feira.

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