“Fui no covil do monstro”; Gravações de fevereiro mostram o então gerente administrativo da Santa Casa relatando à cúpula o que ouviu de 40 médicos no sindicato, salário de padre, a contratação da mulher do humorista Carlos Alberto de Nóbrega, paciente de plano faturado pelo SUS e uma “lista de tudo o que acontece no hospital”. As mesmas queixas estão nas denúncias anônimas que abriram o caso, um ano antes
Em 14 de fevereiro deste ano, Alessandro Dias Junqueira, então gerente administrativo e hoje um dos cinco dirigentes presos na Operação Antidotum, mandou três áudios contando o que tinha acabado de ouvir numa reunião do Sinmed, o sindicato dos médicos de Mato Grosso do Sul. Ele foi a convite da médica Isabela Falcão, diretora clínica da Santa Casa.
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“Fui no covil do monstro”, diz. “Gente, vocês não têm noção o tanto que arregaçaram com ela”, sendo que “ela” é Alir Terra Lima, a presidente da Santa Casa, presa na mesma operação.
As gravações estão anexadas à representação do Ministério Público, que as usou para demonstrar que as irregularidades “não permaneciam ocultas dentro da instituição”. A promotoria transcreveu os áudios e seguiu adiante.
Mas o que Alessandro enumera nessas conversas é uma lista de assuntos que o Ministério Público não apurou na operação e que, um ano antes, já tinham sido levados por denunciantes anônimos ao Núcleo de Apoio Especial à Saúde do próprio MP.
“Isso aqui é um hospital, não é uma igreja”
O primeiro item da reunião, segundo ele, foi o padre. “Falaram do padre Ricardo, a Maria Augusta desceu a lenha, falou: ‘Onde já se viu, a gente paga salário para padre. Isso aqui é um hospital, não é uma igreja!'”. E completa, contando a origem da irritação dos médicos: “sendo que ela pegou esse dia (sic), o padre levou na casa dela, para benzer a casa dela”. A pessoa citada pode se tratar de Maria Augusta Rahe, médica chefe do Centro de Tratamento Intensivo. Quanto a padre, se trata de Ricardo Pereira, paróco da capelania da Santa Casa e tratado nas comunicacoes institucionais como analista de apoio religioso.
Na ficha de estabelecimento do Cadastro Nacional de Saúde, o nome do Padre consta como “missionário” cumprindo o regime celetista.

Alessandro discorda dos médicos nesse ponto e sai em defesa da prática: “A Santa Casa é uma filantropia, ela é católica, quem fundou foi as freiras, quem tomava conta eram as freiras, as freiras vão voltar. O padre (…) arrecada dinheiro para a igreja, arrecada dinheiro para a Santa Casa. Parece que ela não entende essas coisas”.
O assunto não é novo. Em 9 de julho de 2025, sete meses antes do áudio, uma pessoa que pediu sigilo declarou ao NAES, na sede do núcleo, que “a atual gestão também contratou diversos parentes e amigos para integrar a equipe de servidores da Santa Casa”, citando o filho da diretora-presidente, que trabalharia no plano de saúde e no departamento de informática, e acrescentando: “Também houve a contratação de um padre, que dá expediente na Santa Casa e recebe salário”. No mesmo depoimento: “Há diversos profissionais da Santa Casa que ‘entraram pobres’ e saem ricos”.
A promotora Daniela Cristina Guiotti, coordenadora do NAES, chegou a oficiar a Diretoria Corporativa pedindo que informasse “se há parentes dos membros da Diretoria Corporativa que integram os quadros de servidores ou de empresas prestadoras”, com nome completo, setor e remuneração. A resposta da Santa Casa sobre esse ponto não consta do trecho do procedimento a que a reportagem teve acesso.
A mulher de Carlos Alberto de Nóbrega
O segundo item que Alessandro reproduz é seco: “Olha, mais meteram a boca, falaram da mulher do Carlos Alberto de Nóbrega, falaram disso, falaram daquilo”.
Ele não explica do que se trata. As denúncias anônimas do PIC explicam. Segundo uma declaração prestada ao NAES em 5 de agosto de 2025, “a proprietária do Instituto Nóbrega, Dra. Renata Domingues de Nóbrega, que reside em São Paulo, é a Diretora Técnica do Plano de Saúde da Santa Casa, fato que causou estranheza nos médicos que atuam no hospital”.

O Instituto Nóbrega é a empresa de neurocirurgia que esteve no centro da crise clínica do hospital em 2025. Outra declaração, também anônima, descreve o que aconteceu: em outubro de 2024, a gestão encerrou um contrato de R$ 450 mil mantido com neurocirurgiões de Campo Grande e contratou o instituto, de São Paulo, “por um valor superior ao anteriormente contratado”, a declaração registra cerca de R$ 650 mil. A empresa traz médicos de todo o país para plantões.
O resultado, segundo o denunciante: “os profissionais não possuíam a qualificação necessária, diante das diversas falhas graves durante os atendimentos”. Alguns “sequer possuíam o Registro de Qualificação de Neurocirurgia”. Houve, diz o depoimento, “mortes ou sequelas”, entre elas “o caso de uma paciente que possuía um tumor cerebral de um lado do cérebro e foi operada do outro lado” e que morreu, e o “caso da criança Sophie”, menina que sofreu acidente com um portão em casa e a família suspeita de negligência no atendimento na Santa Casa.
Os casos foram encaminhados ao promotor da 76ª Promotoria e ao CRM/MS.
O mesmo relato diz que a Diretoria Corporativa e o diretor técnico “foram coniventes com esta grave situação”, porque os fatos eram relatados desde fevereiro de 2025 e o distrato só veio em meados de junho.
Depois do rompimento, os neurocirurgiões locais voltaram a atender. Àquela altura, informa o depoimento, vinte pacientes estavam internados havia mais de vinte dias, alguns há quase 60, esperando cirurgia neurológica, e parte deles “perderam o tempo oportuno do tratamento”.
Foi por causa disso que a promotoria pediu à Santa Casa a cópia do contrato com o Instituto Nóbrega e do contrato anterior, “a fim de verificar o aumento do valor gasto pelo hospital e eventual prejuízo para a instituição”, além de todos os documentos em que a Diretoria Técnica apontou falhas à Diretoria Corporativa.
Paciente de plano faturado pelo SUS
No segundo áudio, Alessandro trata de dinheiro público. Ele comenta a cobrança de um interlocutor que chama de Maurício, não identificado na gravação, e que teria batido na tecla de “só vamos pagar o que for regulado por nós”.
Então levanta a hipótese que, diz, percebeu ali: “a gente recebe paciente no pronto-socorro, a gente recebe paciente do privado e fatura pelo SUS, entendeu? E às vezes a gente cobra do paciente”. E detalha: “entra pelo Prontomed, vai pelo SUS, a gente regula, a gente faz tudo e cobra do SUS um paciente que é do privado, que ele paga mensalidade e ainda faz pelo SUS. Por isso que ele bateu na tecla: ‘só vamos pagar a produção daquilo que for regulado por nós'”.
Por tratar de regulação e pagamentos, pode se tratar do secretário estadual de saúde, Maurício Simões. Quanto à mensalidade, Alessandro dá a entender que os clientes do plano de saúde da Santa Casa são atendidos pelo SUS, mesmo pagando a mensalidade.
Ele próprio não afirma que a prática existe, diz “eu não sei se é ou não é, não sei, que pode acontecer isso”. E conclui indicando onde estaria o problema: “a Alir tem que abrir o olho mais é com o plano de saúde”.
Na sequência, cobra da presidente que resolva a situação de dois nomes: “ela tem que acordar para a vida dela, para as paixões, como diz você, amores que matam, regularizar o Paulo”, referência, para o MP, ao advogado Paulo da Cruz Duarte, e “Isabela meteu o pau no Rinaldo ontem, os médicos não confiam nele, todo mundo chama ele de ladrão”, se tratando do diretor financeiro Rinaldo Romano.
“Eles têm uma lista de tudo”
O trecho mais revelador do primeiro áudio é o inventário do que, segundo Alessandro, os médicos acumularam. “Está todo mundo sabendo de tudo. A história do carro do Rinaldo, a mulher do Carlos Alberto Nobrega, a ida no parque da… até a minha viagem e da Mariana para São Paulo, eles falaram. Eles têm uma lista de tudo o que acontece no hospital e a gente achando que a gente está pagando de pavão aqui dentro.”
Ele conta que foi direto à presidente com tudo: “eu peguei e contei tudo para ela hoje, ela está em choque”. E que Alir teria ficado tão abalada que “foi gravar um vídeo e ela estava tão nervosa das coisas que eu falei, que saiu uma bosta o vídeo dela institucional, falando da crise”.
Diz ainda ter proposto uma saída à presidente: “os médicos falaram que não aceitam o Rinaldo aqui dentro da administração, que ele rouba, a diretoria não faz nada. Isso foi falado na reunião do sindicato, onde tinha 40 médicos. Que cara a senhora tem agora para administrar, sabendo que eles sabem da situação?”. E ofereceu a prova: “inclusive, eu posso falar tudo, eu gravei toda a reunião. Eu tenho tudo gravado. Então pode mostrar para a diretoria e usar isso daí para a senhora se livrar do Rinaldo”.
O áudio termina com uma frase que, lida hoje, vale por um resumo: “eu lavei minha égua hoje em relação a tudo que eu escutei. E tudo eu concordo com os médicos”.
O que ficou de fora?
Nenhum desses assuntos, o salário do padre, a contratação de parentes, a diretora técnica do plano ligada à empresa de neurocirurgia, o faturamento de paciente de convênio pelo SUS, foi objeto de apuração específica na representação que resultou na Operação Antidotum.
A peça se concentrou em duas frentes: o contrato de digitalização com a Redvalue e os contratos da operadora Santa Casa Saúde com as empresas do advogado Paulo da Cruz Duarte. Os áudios entraram como demonstração de que a cúpula sabia o que se falava dentro do hospital.
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