Pai e filha Resende, os irmãos Modesto e o casal Hashioka ocupam as quatro maiores cotas do União em Mato Grosso do Sul. No PL, o 1º e o 2º vice-presidentes do diretório receberam R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão do partido, a filha e esposa, R$ 600 mil, cada.
Dez candidatos, cinco sobrenomes, R$ 9,955 milhões em recursos para campanha. É quanto já receberam, até 5 de setembro, as cinco famílias que concorrem em dupla na coligação que apoia a reeleição de Eduardo Riedel (PP) em Mato Grosso do Sul. Praticamente tudo veio dos partidos, ou seja, do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o dinheiro público da eleição.
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Não há irregularidade em parentes concorrerem juntos nem em receberem verba partidária. A lei não veda. O que os dados mostram é outra coisa: em dois dos três partidos que mais dinheiro trouxeram ao Estado, o sobrenome e o cargo no diretório andam junto com o tamanho do cheque.
| Família | Candidatos | Receita até 08/09 |
| Resende (UNIÃO) | Geraldo, dep. federal — R$ 1.500.000 · Bárbara, dep. estadual — R$ 966.600 | R$ 2.466.600,00 |
| Modesto (UNIÃO) | Rose, dep. federal — R$ 1.500.000 · Rinaldo, dep. estadual — R$ 483.300 | R$ 1.983.300,00 |
| Hashioka (UNIÃO / Republicanos) | Dione, dep. estadual — R$ 966.600 · Roberto, dep. federal — R$ 830.000 | R$ 1.796.600,00 |
| Portela (PL) | Tenente Portela, dep. federal — R$ 1.000.000 · Ana, dep. estadual — R$ 605.000 | R$ 1.605.000,00 |
| Nogueira, de Dourados (PL) | Rodolfo, dep. federal — R$ 1.505.000 · Gianni, dep. estadual — R$ 600.000 | R$ 2.105.000,00 |
Fonte: TSE / Dados Abertos, receitas de candidatos, MS, 08/09/2026.
União Brasil: quatro maiores cotas, três famílias
A Direção Nacional do União Brasil repassou R$ 8.243.020,00 a 13 candidatos de Mato Grosso do Sul. As quatro maiores cotas foram para Geraldo Resende (R$ 1,5 milhão), Rose Modesto (R$ 1,5 milhão), Bárbara Resende (R$ 966.600) e Dione Hashioka (R$ 966.600). Em sétimo, Rinaldo Modesto, com R$ 483.300.
Somados, os cinco receberam R$ 4,4 milhão, 54% de tudo o que o União mandou para o Estado. Os outros oito candidatos do partido dividiram os 46% restantes, com cotas entre R$ 483.300 e R$ 289.980.
Bárbara Gonçalez Resende, 28 anos, advogada, é filha do deputado federal Geraldo Resende e disputa o primeiro mandato. Sua cota, R$ 966.600, é a maior que o União deu a um candidato a deputado estadual, empatada com a de Dione Hashioka, ex-deputada.
Está acima de Rinaldo Modesto, deputado com mandato, e de Jerson Domingos, ex-presidente da Assembleia (R$ 400 mil) e ex-conselheiro estadual de Contas.
Rinaldo Modesto é irmão de Rose Modesto. Rose, ex-deputada federal e candidata ao governo em 2022, recebeu do União o mesmo valor que Geraldo Resende: R$ 1,5 milhão.
Um casal, dois partidos
Dione e Roberto Hashioka são casados e registraram patrimônio de R$ 12,5 milhão: R$ 6.252.608,12 para cada um, declarados.
A aposta também foi dividida. Dione, ex-deputada estadual, concorre pelo União Brasil e recebeu a maior cota do partido para a Assembleia. Roberto, deputado estadual e ex-prefeito de Nova Andradina, migrou para o Republicanos, legenda do vice de Riedel, Barbosinha, e disputa a Câmara Federal com R$ 830 mil do partido: R$ 600 mil da Direção Nacional e R$ 230 mil da direção estadual. É o quarto maior repasse do Republicanos a um candidato a federal em MS, atrás de Beto Pereira, Jaime Verruck e Isa Marcondes.
Dois partidos da mesma coligação, dois fundos, um endereço.
PL: cúpula do diretório no topo da lista
No PL, o cruzamento é com o organograma. O órgão provisório que dirige o partido no Estado desde outubro de 2025 tem Reinaldo Azambuja na presidência, Tenente Portela como 1º vice-presidente, o deputado federal Rodolfo Nogueira como 2º vice e o deputado estadual Coronel David como secretário-geral.
Os repasses da Direção Nacional do PL a esses quatro: Rodolfo Nogueira, R$ 1,5 milhão, o maior valor dado a um candidato a federal, empatado com Mara Caseiro e Marcos Pollon.
Tenente Portela, R$ 1 milhão. Coronel David, R$ 1 milhão, o segundo maior patamar entre os candidatos a estadual, atrás apenas de Paulo Corrêa (R$ 1,1 milhão). Azambuja, o presidente, R$ 500 mil para o Senado.
Ana Portela, vereadora e filha de Tenente Portela, recebeu R$ 600 mil: a maior cota do PL a uma mulher na disputa pela Assembleia e a sétima entre os 25 candidatos do partido. Eleita para Câmara de Campo Grande em 2024, é a “01 do Capitão” apresentada por Capitão Contar em vídeo em suas redes sociais.
O caso tem precedente. Em setembro de 2024, quando Tenente Portela presidia o PL-MS, Ana Portela recebeu R$ 300 mil do partido para a campanha a vereadora de Campo Grande, quase seis vezes o que receberam os outros candidatos da sigla na Capital, enquanto 27 ficaram sem nada.
Filiados denunciaram, na época, que a diferença valia pelo parentesco; Ana negou e disse que a decisão era da executiva nacional, que priorizava candidatos próximos de Jair Bolsonaro. Entre os que reclamaram da falta de verba naquele ano, estava o vereador André Salineiro. Em 2026, Salineiro aparece com R$ 800 mil do PL, o quinto maior repasse do partido a um candidato a estadual.
Gianni Nogueira, vice-prefeita de Dourados, é casada com Rodolfo Nogueira, o 2º vice-presidente do PL-MS. Lançada em julho como candidata a deputada estadual e apresentada em Dourados como “nome de Bolsonaro”, ela recebeu R$ 600 mil.
O marido recebeu R$ 1,5 milhão em 24 de agosto, no mesmo lote em que o PL abasteceu 18 candidatos a estadual.
Família é legal
Parentes podem concorrer no mesmo pleito e pelo mesmo partido; a inelegibilidade por parentesco da Constituição alcança apenas o cônjuge e os parentes do chefe do Executivo, na circunscrição dele.
A distribuição do fundo eleitoral é decisão interna de cada partido, que só precisa cumprir os pisos legais, ao menos 30% para candidaturas femininas, calculados sobre o total nacional da legenda, e a proporção para candidatos negros.
Nada obriga o partido a explicar por que a filha do vice-presidente recebeu mais que a deputada com mandato, nem por que dois sobrenomes ficaram com mais da metade da verba de um diretório. Mas o dinheiro é público, e a prestação de contas também. Chora mais que pode menos.
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