Chapa de Riedel confirma que Perez voou no jato da JBS ‘em viagem particular’

Coligação do governador admite, em petição à Justiça Eleitoral, que secretário de governo estava em viagem particular ao desembarcar de jatinho executivo da família controladora da JBS.

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O governo de Mato Grosso do Sul não respondeu a nenhuma das reportagens sobre o secretário de Governo e Gestão Estratégica, Rodrigo Perez Ramos, filmado desembarcando de um jato da família Batista no aeroporto de Campo Grande no feriado de 7 de Setembro. Mas a coligação do governador Eduardo Riedel respondeu à Justiça Eleitoral e a resposta confirma o fato.

Em representação ajuizada no dia 8 contra o deputado e candidato João Henrique Catan (Novo), autor do vídeo, a Coligação Fazendo o Futuro Acontecer, que reúne União/PP, PL, PSDB/Cidadania, Podemos, Avante, Republicanos, PSD e MDB, sustentou que “o Secretário estaria em viagem particular com sua família e, no mesmo dia, teria participado do ato político ao lado do candidato Eduardo Riedel”. O ato político foi lembrado pelo fato de Catan ter ironizado Perez descer do jatinho dos bilionários enquanto Riedel estava em um trio elétrico fazendo discurso contra a corrupcao. Mas o evento na Afonso Pena seria horas após a chegada de Perez, com várias malas, da fazenda do presidente da J&F, Aguinaldo Ramos, flagrada por Catan,

A juíza auxiliar relatora, Mariel Cavalin dos Santos, resumiu o que ficou incontroverso: “os documentos apresentados pela representante indicam que o Secretário Rodrigo Pérez Ramos esteve próximo à aeronave retratada na publicação e transportou bagagens. A controvérsia não reside, portanto, simplesmente na existência da viagem, da aeronave ou das malas.”

Ou seja: avião, malas, data e lugar estão admitidos nos autos pela chapa do próprio governador. O que ela contesta é a frase de Catan sobre “malas de dinheiro” e a simultaneidade com o trio elétrico.

Viagem particular

A explicação escolhida pela coligação traz à tona um efeito que ela talvez não tenha calculado. Se o secretário estivesse a serviço, haveria ao menos a tese de interesse público no deslocamento. Uma viagem particular, com a família, no jato de um grupo que tem R$ 30 bilhões em projetos dependentes de licenças e incentivos do Estado é o que a Lei de Improbidade Administrativa, no artigo 9º, chama de “vantagem econômica, direta ou indireta”, recebida “em razão do exercício de cargo” de “quem tenha interesse que possa ser atingido” pela ação do agente público.

E a viagem particular tem um itinerário. O rastreamento do Phenom 300 PS-VFA, pelo sinal que o próprio avião emite, mostra que ele ficou parado na pista privada da fazenda dos Batista em Iaciara (GO) da noite de 4 de setembro até a manhã do dia 7, com uma única saída nesse intervalo: duas horas em Brasília, na tarde da sexta-feira.

Na segunda, decolou de Iaciara às 10h17, pousou em Campo Grande por volta das 11h50, deixou os passageiros e às 12h50 voltou para Goiás. Passageiros que desembarcaram desse avião passaram o feriado prolongado na fazenda da família que o opera, ou foi apanhada em Brasília na sexta e levada para lá. Nas duas hipóteses, a “viagem particular” inclui hospedagem, não só carona.

O desenho não é inédito. Em 1º de janeiro deste ano, o mesmo avião buscou alguém em Campo Grande, trinta minutos no solo, e o levou para Goiás; em 4 de janeiro, trouxe de volta, ficou uma hora e retornou à fazenda. É o mesmo roteiro do feriado de setembro, oito meses antes.

O vídeo e o avião contam a mesma história

Os metadados do arquivo original de Catan (gravado num iPhone 17 Pro Max com a câmera teleobjetiva de 100 mm) registram segunda-feira, 7 de setembro de 2026, 12h03, com geolocalização no Aeroporto Internacional de Campo Grande.

O rastreamento do PS-VFA, feito antes de o vídeo ser analisado, situava o pouso em torno das 11h50. Treze minutos separam o pouso estimado das malas no pátio.

Nas imagens, três homens carregam malas de rodinha: um de terno cinza e óculos escuros, um de camiseta azul-marinho e um de polo escura, também de óculos escuros, com duas malas.

O de terno, segundo fontes, seria servidor da Casa Militar do governo. Se a viagem era particular, também resta a explicação de Perez do motivo para um servidor ter ido buscar ele e as malas no feriado.

Decisão

A decisão de 8 de setembro deferiu em parte a liminar. Mandou Catan remover em 24 horas um story e um reel, sob multa de R$ 5 mil por ato de descumprimento, e o proibiu de republicá-los. O motivo não foi o avião: foi a frase de que “esse dinheiro é transportado indevidamente em malas, através da concessão de benefícios fiscais indevidos”.

Para a juíza, “a prova disponível não revelou qualquer elemento objetivo indicativo de que as malas retratadas contivessem dinheiro, recursos públicos, propina ou valores relacionados à concessão irregular de benefícios fiscais”.

A mesma decisão separou o que é ilícito do que é jornalismo.

Há, escreveu a juíza, “diferença juridicamente relevante entre formular questionamentos acerca da presença de agente público em aeronave privada, que configura matéria potencialmente submetida à crítica política, e apresentar como acontecimento concreto o transporte ilícito de dinheiro público em malas”.

A coligação pediu também a remoção do reel do Investiga MS. A juíza negou: “a atividade de um portal ou perfil informativo pode envolver notícia acerca da própria acusação, reprodução crítica, contextualização”, e a licitude “deve ser examinada a partir do conteúdo concreto da publicação e de seu contexto próprio”. Negou ainda estender a ordem a “sucessivas replicações” e obrigar Catan a “zelar” pelo que terceiros publicam.

Sobre o rótulo “jatinho da JBS”, a decisão registra que “a própria inicial informou que a aeronave estaria registrada em nome de VLBM Participações e discorre sobre relações societárias envolvendo membros da família Batista”. Quem informou isso ao tribunal foi a chapa de Riedel. A juíza não considerou a expressão falsa; disse que “demanda exame mais aprofundado”.

O sigilo pedido pela chapa do governador

Depois da inicial, em petição superveniente, a coligação pediu que o processo tramitasse em segredo de justiça, alegando que o material juntado, vídeo, fotos, expõe familiares do secretário. A juíza deferiu “excepcionalmente”, com a ressalva de que a restrição “não se destina a subtrair do conhecimento público a existência da controvérsia eleitoral, nem a resguardar candidatos ou agentes públicos do escrutínio inerente à atividade política”, e poderá ser reavaliada “especialmente após o contraditório”.

O efeito prático, em plena campanha, é que a admissão de “viagem particular com a família” e as provas da presença de Perez no ato ficam fora do alcance do eleitor.

O que falta responder

A decisão fecha uma pergunta, Perez estava no avião, e abre outras.

Onde o secretário passou de 4 a 7 de setembro, e quem custeou hospedagem e voo?

Perez viajou no PS-VFA em outras datas, 1º e 4 de janeiro, 23 a 25 de maio de 2025, 24 de maio de 2026, quando o avião fez ponte com Campo Grande durante o leilão da família em que ele foi fotografado?

O secretário comunicou a hospitalidade à Controladoria-Geral do Estado ou à Comissão de Ética?

A reportagem enviou perguntas à Secretaria de Governo, ao gabinete do governador, à Coligação Fazendo o Futuro Acontecer, à J&F e à VL Holding. O espaço segue aberto.

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